1.Introdução.

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As doenças cerebrovascular, arterial coronária e arterial periférica, conhecidas como doenças ateroscleróticas, constituem a principal causa de mortalidade e morbidade em todo o mundo (OLIVEIRA & SILVA, 1999).

Na América Latina, as doenças circulatórias respondem por um terço de todas as mortes. São também a principal causa de mortalidade no Brasil. Do total de mortes, representou 11,8%, 30,8% e 28%, respectivamente, nos anos de 1930,1980 e 1994. Em 1994, a mortalidade proporcional foi de 34% para indivíduos com idade maior que 30 anos. A tendência da mortalidade por doenças circulatórias, isquêmicas do coração e cerebrovasculares tem mostrado declínio nos países desenvolvidos desde a década de 1960. No Brasil, observou-se um aumento discreto de risco de morte por doenças circulatórias de 1975 a 1984 e, posteriormente, uma tendência de queda progressiva até 1996. A maioria dos autores acredita que o declínio da mortalidade por doenças circulatórias deveu-se, principalmente, aos controles dos fatores de risco, além da melhora do diagnóstico e da intervenção médica (SOUZA et al, 2001).

A aterosclerose é uma doença em que múltiplos fatores contribuem para a degeneração da parede arterial, sendo evidente que a intensidade e duração das lesões determinam a severidade das alterações. Muitos fatores têm sido identificados como co-responsáveis pela progressão da aterosclerose, principalmente, idade, sexo, hereditariedade, dieta, dislipidemia, tabagismo, níveis de atividade física, obesidade, hipertensão arterial sistêmica, diabetes melitus, hiperfibrinogenemia, hiperhomocisteinemia, hipertrofia ventricular esquerda e fatores psicossociais (ALENCAR et al, 2000).

Muitas evidências sugerem que o processo de formação da placa aterosclerótica inicia-se na infância e progride lentamente até a vida adulta, quando ocorrerão as manifestações clínicas da doença, verificando-se, portanto, a existência de um longo período assintomático. As primeiras hipóteses sobre os mecanismos envolvidos na aterogênese surgiram a partir da metade do século XIX. A teoria, atualmente aceita, sobre a patogênese da aterosclerose é de que ocorra uma resposta à agressão do endotélio da artéria, proposta inicialmente em 1856. A lesão endotelial constitui o evento inicial do processo de formação da placa aterosclerótica e a aterogênese pode ser considerada como uma resposta inflamatória protetora à lesão do endotélio. As lesões avançadas podem sofrer complicações, como ruptura da placa com o desenvolvimento de hemorragia e trombos. Estas situações constituem a principal causa de morbidade e mortalidade secundárias à aterosclerose (FRANÇOSO & COATES, 2002).

Um dos progressos mais importantes obtidos no controle e na prevenção das doenças ateroscleróticas em geral foi o aumento da precisão na identificação dos fatores de risco, o que permite que sejam feitas tentativas de impedir a aterogênese ou limitar sua progressão.

O controle dos fatores de risco cardiovascular tem se tornado parte integral da prática médica e as estratégias antiateroscleróticas incluem a prevenção primária das doenças cardiovasculares, impedir a progressão da lesão aterosclerótica e obter a regressão da mesma.

Novos marcadores aterogênicos e interações entre os fatores de risco estão sendo pesquisados e estudados e as evidências científicas atuais dos inúmeros estudos clínico-epidemiológicos demonstraram que a aterosclerose pode ser prevenida e controlada, e que pode ser potencialmente reversível, normalizando o perfil lipoprotéico, controlando a dieta e demais fatores de risco modificáveis (COSTA & MARTINEZ, 1997).

As características patológicas e as implicações clínicas da aterosclerose vêm sendo estudadas há pelo menos um século. Porém o esclarecimento dos mecanismos celulares e moleculares tem sido amplamente discutidos somente nos últimos 20 anos. Uma das mais significantes mudanças dos últimos anos tem sido o aumento do número de fatores reconhecidos como potencialmente lesivos ao endotélio vascular, que constituem, portanto, fatores de risco para aterogênese (SCHACHTER, 1997).

Diferenças na prevalência de fatores de riscos convencionais (tabagismo, hipertensão e dislipidemia) não explicam as variações temporais e geográficas na prevalência e severidade de aterosclerose e patologias associadas, além disso se estima que um terço de indivíduos com aterosclerose não tem alguns destes fatores de risco principais. Isto tem resultado na procura para novos fatores de risco, como fatores relacionados com a coagulação, fatores inflamatórios e agentes infecciosos (COUTINHO et al, 2000).

De acordo com a teoria atual de aterogênese, a aterosclerose é uma doença inflamatória, e este processo começa com uma lesão inicial que dispara uma resposta inflamatória envolvendo linfócitos, macrófagos, células musculares lisas e células endoteliais. Alguns dos gatilhos propostos para lesão inicial na aterosclerose incluem o monóxido de carbono dos cigarros, atrito hemodinâmico sobre o endotélio, hipercolesterolemia, LDL-oxidada (OX-LDL), e mais recentemente agentes infecciosos como o herpes vírus, citomegalovírus, Helicobacter pylori e Chlamydia Pneumoniae (COUTINHO et al, 2000).

O entendimento dos mecanismos da aterogênese e suas relações com os fatores de risco é fundamental para a prevenção e diminuição da morbidade e mortalidade das doenças cardiovasculares.